quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ótica de vizinho que veio do nordeste

"Olí, meu povo, eu vô contá o que acunteceu cum uma família alí perto du riu.
Um homi dexô a mulé e us fíu e foi se imbora numa canoa. Cumu é qui pode?
eu ja vi di tudo nessa vida, mas esse homi aí é mucho loco! Ele dexô a mulé
que é um pitéu e se debando pra num sei donde numa canoa véia. Se ainda
fosse nun iati, eu ainda digo, mas numa canoa?! Será que a mulé dele num
num tinha os dente e tala loco pra ir embora? Mas ói, coitado dus fíu dele!
Tão tudo doidinho, doidinho!!! Todo Santo dia dexu cumida na bera du riu,
será que eles num sabi que iemanjá é nu mar e nao nu rio???
E a irmã dele, qui levó o mininu dela, dexó o bichiu no sol quente da peste
e fico gritando pelo pai!! Ô povo doidio!!! Mas o mais ingraçado foi quando o
fiu mais homi disse que tinha visto o fantasma du pai e se cagó todinho!
Gente, eu tenho aqui com a minha bestera, que esse homi, saiu daqui ás
pressa numa canoa véia por que foi ele qui ganhó nessa mega sena e de
doidiu ele não tem nada!!!"

Verena Vieira

O vento ao pai:

Ser musica é ser som e ser silêncio.

Silêncio é swing
Ruído é movimento.

Para ser uma parte de um todo inteiro; o perfeito lado de um oposto complementar, é preciso que sejas inteiro na parte que te cabe. Se não aprenderes por ti mesmo, só um semelhante para te guiar: Eu, vento.

Abandone os remos. Te deixes à deriva de meus sopros: ensinamento!


Para ser todo música, é preciso ser muito silêncio e bastante som.

É o silêncio que entra nos alvéolos – inspiração. Pra só depois expirar a energia que vibra - som.

É pelo silêncio que contemplas o universo inteirinho dentro do corpo.

Um tempo de solidão é uma dádiva. Dois tempos mais… Desgraça?

Mas, eis que diz o silêncio:
“buscai por mim, buscai por mim, mas jamais me encontrarás” – Já provara o velho Cage.

É mesmo o silêncio ausência de som?

Ausência de som é ausência de vida.

Silêncio pulsa.
Pulsa porque alimenta.
Alimenta porque vivifica.



Bendito seja o estar em silêncio!

Que sejas então, Senhor do não som!

Que suportes nada ouvir e nada pronunciar. Nem uma nota ferir, nem um solfejo sequer cantarolar. Que cerrem seus lábios e ouvidos até que aprendas a ser inteiro em ser só. (silêncio...)

E quem sabe, quando este tempo findar, serás então todo música? E toda música que manifestar de ti, não será somente aos ouvidos. Será para os olhos, para o tato, para o olfato, para as papilas gustativas. Música para os pés descalços, para o umbigo e para as entranhas. Para as pálpebras em movimento, para os dentes e cabelos. Música para toda a gente, alma.

Corpo inteiro.
por agora:
- Shhhh!...

Cibelle Jemima

Ótica do Pai

E fez-se mar. Ou melhor, fiz-me rio. Fiz-me rio para nunca morrer, porque rio não morre. Quando ele deságua no mar, ele continua sendo rio. Mar, rio, água, transparência, calmaria e loucura. Fiz-me rio para fugir de mim mesmo. Das minhas angústias, pequenezes e monstros. Para desmilinguir-me entre as suas claras águas. Para esquecer do passado.
E porque tão próximo de casa? Porque rio também ama e sente saudades. Quero, quando sou rio, molhar devagar os pés daqueles que amo e tive de deixar. Quero cochichar algo em seus ouvidos, dizer que estou bem, que estou onde eu sempre quis estar.
O amor que tenho pelo rio é tão imenso que não me contentava somente em tê-lo, queria sê-lo. Nunca tive a curiosidade de saber o que tinha na outra margem, o que de verdade sempre quis, foi ser margem. A terceira margem do rio e ali viver para nunca mais morrer.

Thainá Oliveira.

Ótica do pai

A vida aqui segue andando pacata, ordeiro, igual...  E eu como as outras pessoas desse lugar, acompanho o ritmo dessa vida.
Consideram-me um homem cumpridor dos deveres, ordeiro e quieto e é dessa maneira que minha família me enxerga, por fora é de fato  assim que sou. Estaria tudo certo e normal se por fora se combinasse, fosse igual por dentro, mas não é o que acontece.
                Por dentro, porque tanta insatisfação, tantos questionamentos e esse turbilhão de sensações e aflições, essa eterna agonia?  Inquietude... Pasmaceira.
Cheguei à conclusão, observando-o por minha vida toda, que sou como ele -o rio - quieto, ordeiro, silencioso... Mas basta ser provocado, por um rajado de vento que seja pra ele se rebelar e quando por uma tempestade então..., para que se conheça a sua força, a sua fúria, a sua grandeza, aí ele se mostra gigantesco, poderoso, como realmente é a sua natureza.
O que verdadeiramente existe nas suas profundezas e da sua misteriosa existência, ninguém seguramente sabe.
Continuo sonhando constantemente com o rio, confundo a minha realidade com o sonho do rio. Eu sou eu, eu sou o rio, o rio sou eu...
Agora sim... nesta minúscula canoa, eu me completo com o rio e o rio se confunde comigo, estou calmo, ordeiro, quieto em paz com a minha natureza... Eu sou a terceira margem do rio.

SELMA MARIA SANTOS BRANDÃO

Ótica do pai

Cansado já estava decidir sair da minha casa, e abandona minha família, não agüentava mais aquela mesmice.Então mandei fazer uma canoa bem resistente para durar pelo menos três décadas, para pensar e viver minha vida solitariamente.Não quero levar nada porque não quero ter lembranças.
Remei, remei, remei e acenei, fiu embora para nunca mais voltar, a margem que me espere porque ela que vai ser a minha família, estava passando por momentos dificies que nem se explicar, era então um problema meu e do rio.


Felippe Batista

Ótica do Pai (parte 2)

Aquele rio escuro cheio de mistérios e bichos me chamou para junto dele, e mergulhei naquele verde, naquela imensidão, naquela margem, o som dos pássaros me conformava e a brisa do vento me acalmava .Era uma sensação tão boa que nunca tinha sentido, então continue remando, remando, remando sem destino, rumo a terceira margem que tanto me suportava.Tudo era tão novo a sensação era muito gostosa que nem lembrava mais da minha família.Parei de remar e fiquei observando o barulho inquietante daquele rio que me adorava e aceitava.Era o paraíso.Então mergulhei naquela água fria e ao mesmo tempo quente que tanto me chamava era tão bom sentir o rio, que nem penso em volta para minha família.

Felippe Rodrigues Batista